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sexta-feira, 3 de junho de 2022

Canavieiras: NOSSA HISTÓRIA - O PADRE DE CHIFRES

 Sexta, 3 de Junho, 2022

   Padre Emiliano era um vigário extremamente venerado em sua cidade pelo devotamento com que se desincumbia de suas missões pastorais. Ele era, além disso, aquele tipo de sujeito boa-praça de temperamento expansivo, muito espirituoso e apreciador inveterado de um vermute bem curado. Padre Emiliano tinha outra virtude adicional: abominava o celibato. Em outras palavras: curtia mulher.  


Mas, por motivos óbvios, Padre Emiliano tinha de operar verdadeiros milagres para poder dar sua bimbadazinha sagrada, longe dos olhares preconceituosos do resto do rebanho, com a ovelha que caíra em suas graças. Padre Emiliano ficava à mercê das circunstâncias para poder ir à casa da sua amada e isso fazia com que ele chegasse lá sempre de forma imprevista, tanto em se tratando de dia da semana como de hora. Ele primava pela discrição nessa matéria.  


Mas é claro que, de cochilo em cochilo, toda a cidade já sabia das escapadelas do padre, embora algumas beatas mais renitentes continuassem esconjurando a informação, atribuindo-a a pura maledicência de algum cristão decaído.

A gravidez da mulher do padre foi acompanhada atentamente pelos bisbilhoteiros de sempre, gerando comentários jocosos por parte destes e interpretações apreensivas dos carolas em geral. O nascimento do do menino então foi aquela coisa: mil e um comentários malandros de uns e murmúrios reprovadores de outros, além de suspiros carregados de desejos reprimidos de beatas donzelas. 

A coisa ficou de domínio público quando aparece pichada no oitão da matriz, sabe-se lá artes de quem, a frase imoral. ''A mula do padre pariu'', misto de verdade e de enigma... Foi aquele deus-nos-acuda, um corre-corre dos diabos para se apagar a injúria estampada na parede... 

Os comentários e piadas se repetiram nas rodas mundanas da pequena cidade acerca daqueles acontecências, mas na verdade ninguém se atrevia à menor abordagem que fosse com o padre. Afinal, ele era gente fina e, além e tudo, cumpridor fiel de suas responsabilidades missionárias, rezando miss todo santo dia na matriz de São Boaventura, visitando com palavras de conforto os enfermos da Santa casa de Misericórdia e dos mais assistenciais da igreja. 


Certo dia Padre Emiliano chega, como sempre, de sopetão  à casa da amada. Padre Emiliano despe-se da batina e antes de perguntar a sua ovelha o porquê daquele estado, vai pegar os chinelos de couro cru que costumava deixar num canto do guarda-roupa. Neste momento a mulher atira-se rápido sobre o padre mas não consegue evitar que ele, a um só tempo, tome o maior susto de todos os tempos e viva o momento de maior indignação de sua vida: ele encontra exprimido num canto do guarda-roupa, de cuecas, ninguém mais do que o conceituado comerciante Rochael Cardoso, um dos católicos mais assíduos da igreja e doador frequente de benévolas contribuições para as obras de caridade do padre.

 
Canavieiras em peso soube do acontecimento e do rebu que se seguiu. Imediatamente padre Emiliano, com toda sua fama de garanhão, passou a alvo das zombarias gerais: era o primeiro padre corno de que se tinha notícia. (Carlos de Carvalho) - 100 ANOS DE CANAVIEIRAS - DURVAL FILHO 

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