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quinta-feira, 26 de maio de 2022

NOSSA HISTÓRIA - A POLÊMICA DO MASTRO

 Quinta, 26 de Maio, 2022

    A puxada do mastro de São Sebastião já ensejou uma guerra fria que esquentou a vida da cidade e os tradicionais festejos de fim de ano em Canavieiras, na Praça da Capelinha.  

   Foi no ano de 1956, quando o então vigário da paróquia, padre Agostinho Stauder, modificou o local para o mastro ser fincado e venerado. Isso não aconteceria na Praça da Capelinha, como de costume, mas no novo Bairro São Sebastião (Bairro Três X), onde estava começando a ser construída uma igreja em louvor ao santo, exatamente no largo onde mais tarde foi construído o grupo escolar Antônio Carlos Magalhães. 


    A justificativa do padre era que na Praça da Capelinha, São Sebastião era festejado numa igreja ''emprestada'', consagrada a jesus, Maria e José, isto é, à Sagrada sendo construída em seu louvor. 


   O padre pensava também que assim arrecadaria mais dinheiro para acelerar a obra da igreja.  O Bispo de Ilhéus foi consultado a aprovou a mudança.  

   

   Porém, começou haver reações na cidade, condenando a mudança, e logo políticos passaram a explorar o fato. De repente a cidade estava dividida em pé de guerra, principalmente depois que o padre, ante as pressões, resolveu pedir o apoio ao prefeito Licurgo Ramos e do ex-prefeito e então deputado Osmário Batista, que estava na cidade. Eles deram apoio a mudança. 


A situação então agravou-se e dividiu ainda mais a população. Eram a essa altura os ''osmaristas'', pertencentes ao PSD, contrários à mudança. Edmundistas era os partidários do médico Edmundo Lopes de Castro, anos mais tarde prefeito da cidade). Uma vez confirmada a mudança do local para ser fincado o chamado Pau de Bastião, os ''edmundistas'' anunciaram que fariam um outro mastro, e que no dia da festa a puxada seria para o local de costume, na Praça da Capelinha. 


O clima ficou mais tenso ainda, precisando que a política permanecesse de prontidão e na véspera da puxada fosse buscado um reforço policial de Ilhéus.  No dia D. no porto da cidade, estavam lá de fato os dois mastros. Isso depois de uma tremenda guerra fria nos dias que antecederam a festa. O clima piorou, esperando-se que a qualquer momento estourasse no porto da cidade uma grande luta armada. 


   A polícia, presente em grande quantidade, até então limitando-se a acompanhar os movimentos que precediam a puxada dos dois mastros, resolveu agir. Partiu para o mastro dos ''edmundistas'' e o jogou nas águas do rio pardo, garantindo a integridade do mastro dos ''osmasristas''. 


    O momento que se seguiu foi de grande expectativa, com todo mundo esperando o pior. Mas, felizmente, não houve maiores reações. Então a procissão partiu com o mastro dos ''osmaristas'', sob protestos distantes dos ''edmundistas''. O mastro foi fincado no Bairro São Sebastião e a festa seguiu muito animada, mas ainda em clima de tensão. 


    Alguns ''edmundistas'' mais exaltados ainda tentaram recolher do Rio Pardo o mastro, mas desistiram ante a pressão policial. Tentaram também fazer algumas comemorações na Praça da Capelinha, a essa altura marginalizada, mas foram contidos pela polícia. 


    Essa foi, porém, a única vez que a festa de São Sebastião foi feita no bairro do mesmo nome - local onde deveria estar sendo realizada até hoje pois logo no ano seguinte tudo voltou à Praça da Capelinha, por todos haverem chegado a um denominador comum, inclusive o próprio padre desistiu da ideia da mudança de local. Conto hoje estes fatos, com pleno conhecimento de causa, por ter sido eu o comandante do povo em ordem, sem o disparo de um único tiro, apesar do clima tenso e ameaçador. 


(Ourivaldo Messias dos Santos) 

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